Se você vende no Mercado Livre e sua nota de reputação despencou do nada, ou um anúncio novo já nasceu marcado como "Ruim" mesmo sem uma reclamação sequer, você não está sozinho. A Experiência de Compra por Categoria não é novidade, ela existe desde 2024, mas a discussão em torno dela voltou a tomar conta dos grupos de vendedores, puxada por criadores de conteúdo de e-commerce que resolveram destrinchar como o algoritmo funciona por dentro. O motivo do barulho continua o mesmo de sempre: a métrica pode penalizar quem nunca fez nada de errado.

Afinal, o que é a Experiência de Compra por Categoria?

A Experiência de Compra é o indicador que o Mercado Livre usa para medir a reputação de cada anúncio, numa escala que vai de "Boa" (nota 75 a 100) a "Mediana" (50 a 74) e "Ruim" (abaixo de 30). Até aí, nada muito diferente do que a plataforma já fazia. A polêmica está na forma como essa nota é calculada quando o anúncio ainda não tem histórico de vendas suficiente.

Quando o anúncio já tem volume relevante de vendas, ele é avaliado pelo próprio desempenho: a taxa de reclamação daquele produto específico. Mas quando o anúncio é novo ou vende pouco, o sistema não avalia o produto isoladamente. Em vez disso, ele "herda" a taxa de reclamação de toda a categoria do vendedor, mesmo que aquele item individual nunca tenha recebido uma única reclamação.

O problema: penalizado por uma média que não é sua

É aqui que mora a indignação. Um anúncio pode ter zero vendas problemáticas e ainda assim ser classificado como "Ruim", simplesmente porque a média de reclamações do vendedor naquela categoria está pior do que a média do mercado. Segundo relatos de vendedores e consultorias de e-commerce que acompanham o algoritmo, a régua de comparação é rígida: notas medianas já aparecem quando o vendedor reclama cerca de duas vezes mais que a média da categoria, e a nota "Ruim" pode surgir a partir de três vezes mais reclamações que a média, mesmo quando parte dessas reclamações não tem relação nenhuma com a qualidade do produto ou do atendimento (dano no transporte pela transportadora, arrependimento de compra, tamanho errado escolhido pelo próprio comprador).

O resultado prático, relatado por vendedores em fóruns e no Reclame Aqui, tem sido queda abrupta de visibilidade e de vendas, às vezes de um dia para o outro, sem qualquer aviso prévio detalhado sobre o motivo.

Um exemplo simples ajuda a visualizar a matemática: imagine um anúncio com 100 vendas e 2 reclamações, uma taxa de 2%. Se a média da categoria for 1%, esse vendedor já está no dobro da média, o suficiente para cair para "Mediana". Com 4 reclamações nas mesmas 100 vendas (taxa de 4%), a distância sobe para quatro vezes a média, patamar em que a nota vira "Ruim". Note que, nesse cálculo, o que conta não é o número absoluto de reclamações, e sim a distância entre a taxa do vendedor e a média de todos os outros vendedores da mesma categoria.

COMO A NOTA É CALCULADA Anúncio novo Zero reclamações Sem histórico próprio suficiente Herda a categoria média do vendedor Nota Ruim sem culpa do anúncio Fonte: mecanismo de herança de categoria relatado por consultorias de e-commerce e vendedores

Sem vendas suficientes para ter nota própria, o anúncio herda a média de reclamações de toda a categoria do vendedor.

Um anúncio pode nascer com nota "Ruim" sem nunca ter recebido uma reclamação sequer. É assim que funciona a herança de categoria na Experiência de Compra.

Mario Henrique Baptista Garcia, sócio do escritório e especialista em Marketplaces

O que a lei diz sobre penalizar sem explicar, seja você CPF ou CNPJ

O ponto central, do ponto de vista jurídico, não é discutir se o Mercado Livre pode ou não medir reputação de vendedor, isso a plataforma pode fazer. O ponto é como esse direito está sendo exercido: de forma unilateral, comparativa e sem nenhum canal claro de explicação ou contestação individualizada. E isso já é regulado pelo Código Civil, independentemente de o vendedor operar como pessoa física, MEI ou sociedade constituída.

"Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes."

Art. 187, Código Civil (Lei 10.406/2002)

Traduzindo: ter um direito não autoriza usá-lo de qualquer jeito. Se a plataforma exerce o direito de avaliar reputação de um jeito que foge do razoável, sem transparência e sem meio de contestação, isso pode ser considerado abuso de direito, que a lei já trata como ato ilícito.

O mesmo Código Civil também obriga as partes de um contrato, inclusive o contrato entre vendedor e marketplace, a agir com probidade e boa-fé, tanto na conclusão quanto durante toda a execução (art. 422, CC). Uma penalização automática, baseada numa média que nem sempre tem relação com o desempenho real do anúncio, e sem qualquer explicação individualizada, é difícil de encaixar dentro desses princípios.

Isso vale tanto para o vendedor pessoa física quanto para a empresa. E se a nota "Ruim" indevida derrubar a visibilidade e o faturamento da loja, a pessoa jurídica também pode pleitear reparação, inclusive por dano moral: o STJ pacificou há mais de vinte anos que "a pessoa jurídica pode sofrer dano moral" (Súmula 227), justamente para casos em que a reputação e a credibilidade comercial de uma empresa são atingidas.

Quando o vendedor é pessoa física ou MEI, tem uma camada a mais de proteção

Se você vende como CPF ou MEI

Existe uma proteção extra: a LGPD. Como o CNPJ do MEI é, na prática, uma extensão de uma única pessoa, o histórico de reclamações usado pelo algoritmo está perfilando você, e a lei dá o direito de pedir revisão de decisão automatizada.

"O titular dos dados tem direito a solicitar a revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado de dados pessoais que afetem seus interesses, incluídas as decisões destinadas a definir o seu perfil pessoal, profissional, de consumo e de crédito ou os aspectos de sua personalidade."

Art. 20, caput, Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018)

Traduzindo: se um sistema automático decide sozinho, sem revisão humana, algo que afeta seu perfil profissional, você pode exigir que essa decisão seja revista e explicada.

Se você vende como empresa (Ltda, S/A)

Esse direito específico da LGPD não se aplica do mesmo jeito: ela protege dado de pessoa natural, não de pessoa jurídica. Mas isso não deixa a empresa desamparada. O argumento que vale aqui é outro: o mesmo abuso de direito e boa-fé contratual explicados acima, que não fazem distinção entre CPF e CNPJ.

Na prática, o caminho jurídico muda conforme o CNPJ é de uma pessoa ou de uma sociedade, mas a proteção contra uma penalização automática, opaca e desproporcional existe nos dois casos.

A lei não devolve sozinha a nota "Boa" pro seu anúncio. Mas garante o direito de contestar a penalização, de exigir explicação individualizada sobre o que pesou contra você e de ser reparado se a queda de exposição já tirou dinheiro do seu bolso. Recuperar o alcance e as vendas que sumiram começa exatamente por aí: provando que a penalização não pode ser uma caixa-preta.

Mario Henrique Baptista Garcia, sócio do escritório e especialista em Marketplaces

O próprio Mercado Livre parece reconhecer o problema

Um sinal interessante: entre os próximos lançamentos anunciados pela plataforma está um "Assistente" que vai explicar ao vendedor, quando solicitado, por que a nota caiu, mostrando a comparação com a média da categoria e exemplos de reclamações que pesaram no cálculo. Se essa funcionalidade avançar como anunciado, ela reforça exatamente o ponto que a lei já garante: a decisão é automatizada e comparativa, e o vendedor tem o direito de entendê-la, não apenas de recebê-la pronta.

O que fazer se sua nota caiu sem motivo aparente

  1. Consulte sua nota dentro do painel de vendedor, em Seus anúncios > Analisar desempenho > Experiência de Compra, e tire print da tela, com data, assim que notar a queda.
  2. Reúna o histórico de reclamações do anúncio específico (não da categoria inteira) para separar o que é responsabilidade sua do que não é.
  3. Identifique reclamações que fogem do seu controle: avaria da transportadora, arrependimento de compra, tamanho ou cor escolhidos errados pelo próprio comprador.
  4. Registre uma contestação formal dessas reclamações junto ao suporte do Mercado Livre, com a documentação reunida.
  5. Se a queda de vendas for relevante para o seu negócio e a plataforma não der uma resposta satisfatória, procure um advogado para avaliar se uma notificação extrajudicial ou uma ação judicial é o caminho, com base no seu direito de revisão de decisões automatizadas.

Nem toda queda de nota tem a mesma causa, mas nenhuma deveria ser uma caixa-preta

Nem todo caso vai exigir intervenção judicial: às vezes uma contestação bem documentada junto à própria plataforma já resolve. Mas o vendedor não deveria aceitar como definitiva uma nota que despenca sem explicação individualizada, especialmente quando ela pode ser resultado de uma média que nada tem a ver com o desempenho real do seu produto.

Sua conta chegou a ser suspensa por completo, e não só a nota de reputação? Veja também como a Justiça obrigou o Mercado Livre a reativar uma conta suspensa em 24 horas e como uma falha na entrega derrubou o faturamento de uma loja por 48 dias.

E quanto mais tempo a nota fica manchada, mais difícil reverter o histórico: cada dia sem contestação formal é venda e visibilidade que não voltam sozinhas depois.

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